Parangaba: o antigo vilarejo que já foi 'cidade' por três vezes antes de virar bairro de Fortaleza
- 04/04/2026

Regional 4 conecta diferentes modais de Fortaleza Quando Fortaleza virou capital, em 1726, era uma vila de menos de 10 mil habitantes, restrita à faixa de litoral. Os viajantes que vinham do interior, após dias de viagem, muitas vezes paravam em um ponto nos arredores de Fortaleza, onde podiam descansar e se preparar para os quilômetros finais até a capital. A localidade viria se tornar uma "cidade" independente, até ser extinta e incorporada a Fortaleza. Mas, na época, era conhecida como Aldeia do Bom Jesus de Porangaba. Hoje, a Parangaba. Fundada na década de 1660, o aldeamento de 'Porangaba' é um das zonas mais antigas continuamente habitadas de Fortaleza. Atualmente, Parangaba é parte de uma cidade, mas antes foi ela própria uma "cidade" - pelo menos, nos termos jurídicos do que era considerado uma cidade até então. ➡️ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp Ao longo dos anos, a "cidade" de Parangaba foi extinta três vezes. Na terceira e última, virou um pedaço da capital cearense. A região chegou a ter uma Intendência (similar à prefeitura) e Câmara municipal, abrigou o primeiro hospício do Ceará, tinha estação ferroviária e até mesmo um teatro. 🎉 A cidade de Fortaleza completa 300 anos no dia 13 de abril de 2026. O g1 Ceará publica uma série de reportagens contemplando histórias e curiosidades de todas as regionais até a data do aniversário da capital cearense. Parangaba tem poucos prédios históricos restantes, a despeito de importância da região para a formação da cidade. Ismael Soares/SVM 📍Atualmente, a Parangaba está situada na Regional 4 de Fortaleza, junto aos bairros Vila Peri, Itaoca, Aeroporto, Montese, Parreão, Vila União, Jardim América, Damas, Bom Futuro, Benfica, Fátima, José Bonifácio. Com cerca de 29 mil habitantes, conforme dados do Censo 2022 do IBGE, a Parangaba tem a maior população da regional. O IDH é 0,420, considerado baixo. Se, para contar a história de Fortaleza, é preciso falar da Barra do Ceará, onde tudo começou; para entender como a cidade foi crescendo até se tornar a maior do Nordeste é preciso falar da Parangaba, um dos povoamentos mais antigos da região, que, por décadas, fez às vezes de porta de entrada para a capital cearense. Do Arronches à Parangaba: três vezes independente, três vezes extinta O aldeamento que deu origem à Parangaba foi criado entre os anos de 1662 a 1664 pelos jesuítas, reunindo malocas do povo indígena Potiguar. À época, o local recebeu o nome de Aldeia de Bom Jesus de Porangaba. Estima-se que o primeiro oratório do local foi levantado em 1664. Centro histórico da Parangaba fica próximo à lagoa, um dos símbolos mais reconhecíveis do bairro Ismael Soares/SVm No século seguinte, as reformas empreendidas pelo Marquês de Pombal em Portugal, com objetivo de modernizar o império e, também, reduzir o poder dos jesuítas, fez que com que as aldeias levantadas pelos jesuítas com os povos indígenas fossem transformadas em vilas e passassem a ter uma administração estatal. 📍Na época, as “vilas” eram administrativamente semelhantes às cidades e costumavam ter, por exemplo, Câmara Municipal e Intendência (semelhante às atuais prefeituras). Com a ordem de Pombal, em 1759, quando Fortaleza já era capital do Ceará há 33 anos, a Aldeia do Bom Jesus da Parangaba acabou convertida em Vila Nova de Arronches, nome que homenageia a cidade portuguesa de Arronches. O local tinha inclusive uma Intendência. O prédio, hoje pouco mais que uma ruína abandonada e tomada por raízes, está na esquina da avenida Carlos Amora com a avenida General Osório de Paiva. Veja na foto abaixo: Prédio da antiga Intendência da Vila de Arronches está abandonado e tomado por ruúnas, na Parangaba Ismael Soares/SVM Arronches permaneceu como independente de 1759 até 1833, quando uma resolução de maio do Conselho Provincial (algo semelhante às atuais Assembleias Legislativas) extinguiu o status de vila. Foi a primeira “extinção” da vila. Em dezembro do mesmo ano, a resolução foi anulada e o Arronches voltou a ser uma vila independente, mas não por muito tempo. Conforme levantamento do advogado e historiador Clodoaldo Pinto, do Instituto Ceará, em maio de 1835, uma lei estadual extinguiu o status de vila do Arronches pela segunda vez e a anexou a Fortaleza. A situação permaneceu assim até 1885, quando o Arronches novamente foi elevado a vila por lei estadual. Desta vez, porém, a vila recebeu o nome do antigo aldeamento do século XVII: Porangaba. O local permaneceu assim, independente, até ser novamente suprimido pela terceira e última vez pela Lei 1.913, de outubro de 1921. A vila foi transformada de vez em um pedaço de Fortaleza. Em 1943, por determinação oficial, o distrito de Porangaba trocou o ‘o’ pelo 'a' e virou Parangaba. ‘Nos arrabaldes da capital’ Igreja de Bom Jesus dos Aflitos, na Parangaba, é uma das mais antigas de Fortaleza Ismael Soares/SVM O centro da antiga vila de Arronches, ou vila de Porangaba, ficava em torno da Igreja de Bom Jesus dos Aflitos, no que hoje é a avenida Carlos Amora. Construída em algum momento do século XVII e reconstruída em 1877, a igreja é uma das mais antigas de Fortaleza. Nos arredores da igreja estava o prédio da Intendência, onde também funcionava a Câmara. Este ‘centrinho’ ficava a cerca de 7,2 quilômetros de distância do centro de Fortaleza. No século XVIII, quando as carroças eram o meio de transporte mais comum e a conexão entre as duas localidades era uma estrada de terra que ficava tomada por mato na quadra chuvosa, a viagem de um ponto para outro era demorada. Por isso, a vila servia como ponto de parada para quem vinha do sertão ou das serras e precisava descansar ou reabastecer antes de seguir viagem. Do mesmo modo, era um ponto de apoio para quem deixava a capital rumo ao interior. Nas margens da lagoa, que hoje é conhecida pela feira, havia sazonalmente uma feira de bovinos. O cenário mudou no século XIX, com a melhoria das estradas e implantação da Estrada de Ferro de Baturité, que tinha o objetivo de escoar a produção agrícola do interior para a capital. Na Parangaba, foi inaugurada uma estação de trem em 1873, que era a última antes de Fortaleza. A estação ainda hoje existe e é tombada pela prefeitura. Veja na foto a seguir: Prédio da antiga estação ferroviária da Parangaba é tombado e foi preservado. Estrutura fica debaixo da linha de Metrô de Fortaleza Ismael Soares/SVM Em 1886, foi instalado na vila o Asilo dos Alienados - o primeiro hospício do Ceará e o décimo do Brasil. Na década de 1890, foi inaugurado uma linha de bonde entre Parangaba e o bairro Benfica, que até então era uma região tomada por chácaras. A vila de Porangaba teve até teatro, o Guarany, que funcionou até o início do século XX. Com o passar dos anos, o local passou ser uma espécie de passeio para os moradores da capital, como descreveu o memorialista Antônio Bezerra de Menezes em um artigo de 1901, no acervo do Instituto Ceará. “Essa vila é quase um arrabalde da capital, tantos e tão fáceis são os meios de comunicação entre uma e outra localidade”, escreveu. “Diversas pessoas que têm ocupações na Fortaleza residem em Porangaba, devido à amenidade do clima, fáceis condições de vida e simplicidade de costume dos moradores”. Trecho indeterminado da Estrada da Parangaba no início do século XX. Pista era então principal via de acesso à Fortaleza de quem vinha do sertão ou do Maciço de Baturité Fotografia de O. Justa/Acervo da Biblioteca Nacional Até a década de 1929, o caminho até a Parangaba ainda era de terra e boa parte das casas ainda eram cercadas de mata, em um cenário que remete muito mais aos cenários do interior do que os arredores de uma capital que começava a inaugurar cinemas, cassinos e prédios altos. Parte disso pode ser visto no relato de Antônio Bezerra. “Do bonde [que ia à Parangaba] goza-se soberbamente, à direita, da vista das belas chácaras do Benfica, do Barreiro, das Damas, da pontezinha da Panela Quebrada, do majestoso edifício do Asilo dos Alienados com o seu elegante jardim, seu pomar, sua horta; da bela casa de sobrado do coronel Manoel Albano”, descreveu. O cenário, inclusive, permaneceu assim por muito tempo. Na década de 1930, a estrada que ligava Parangaba e Fortaleza, até então de terra, foi coberta de concreto. A via foi renomeada avenida João Pessoa. A mudança foi quase anunciação de transformações maiores: nas décadas seguintes, a pacata vila viu o cenário se alterar drasticamente. A partir de 1940, várias indústrias passaram se instalar nas proximidades da linha férrea que cortava a Parangaba. Com as indústrias, operários passaram a se instalar na região, e o mato deu lugar a casas. Estrada que ligava a antiga Vila da Parangaba ao centro de Fortaleza. Foto do início do século XX. Arquivo Nirez Com o processo de urbanização da Parangaba e dos bairros próximos, como Damas, Parangaba e Montese - que mais tarde viriam a integrar a mesma regional 4 -, o cenário urbano passou a ser um só, com as construções lado a lado ocupando as ruas e avenidas. A Parangaba da Regional 4 Com 13 bairros e população estimada de 220 mil habitantes, conforme dados da Prefeitura de Fortaleza, a Regional 4 apresenta grande diversidade de paisagem urbana, indo desde a Lagoa da Parangaba até o Santuário de Nossa Senhora de Fátima. A avenida João Pessoa, antigo caminho para Fortaleza, segue até o antigo bairro das chácaras, o Benfica, onde os sítios viraram o campus da Universidade Federal do Ceará (UFC). Se, no passado, a região da Parangaba se firmou como um importante ponto logístico na ligação entre capital e interior, a Parangaba da atualidade e a Regional 4 preservam algo dessa vocação. Na Parangaba, estão localizados dois dos sete terminais de ônibus de Fortaleza, o Lagoa e o Parangaba. E o Metrô e o VLT têm, no bairro, duas de suas mais movimentadas estações. Ainda na mesma Regional 4, no bairro Aeroporto, está o Aeroporto Internacional Pinto Martins, um dos mais importantes do Nordeste. E, em outra ponta da regional, o bairro de Fátima abriga a Rodoviária de Fortaleza João Thomé, principal porta de entrada do transporte rodoviário à capital cearense. Terminal de ônibus da Parangaba fica ao lado de estação da linha sul do Metrô de Fortaleza e do VLT Linha Leste Governo do Ceará Assista aos vídeos mais vistos do Ceará
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