Preço mais barato e corrida mais rápida: motos por app em Fortaleza se consolidam, mas expõem riscos
- 04/05/2026

Motos por app em Fortaleza se consolidam, mas expõem riscos e busca por direitos A agilidade nos deslocamentos e os preços mais baixos atraem milhares de passageiros a optar por corridas de motocicletas por aplicativo em Fortaleza. Disponível na capital há cinco anos, o serviço ganha cada vez mais adeptos. Ao mesmo tempo, a cidade se adapta às mudanças, enquanto profissionais ainda lutam por valorização e melhores condições de segurança. O serviço de transporte por aplicativos nos moldes atuais começou em Fortaleza em abril de 2016, com a chegada da Uber na capital, oferecendo a modalidade “UberX” — exclusiva de carros e disponível atualmente. No ano seguinte, começou a operar a 99 em Fortaleza, também com carros. Em 2021, a Uber iniciou o serviço de transporte por motocicletas. No ano seguinte, foi a vez da 99. Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp 📍Esta é a quarta reportagem de uma série publicada pelo g1 que aborda os aspectos e impactos do serviço de corridas por aplicativos de transporte em Fortaleza ao longo de uma década. No geral, a quantidade de motos (não só de apps) em Fortaleza aumentou 25% entre 2021 e 2025, conforme dados do Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE). O g1 solicitou a Uber, 99 e Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor) a quantidade de motociclistas nas plataformas, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. Preço mais barato e corrida mais rápida: motos por app em Fortaleza se consolidam, mas expõem riscos Thiago Gadelha/SVM A chegada do serviço de motos por apps na capital aumentou a possibilidade de trabalho para diversos motociclistas, mas Fortaleza registrou acidentes envolvendo passageiros e condutores, o que evidencia a necessidade de atenção especializada a esta forma de mobilidade. Por outro lado, passageiros são atraídos por deslocamentos mais rápidos e preços mais baixos, mesmo diante de reclamações sobre o serviço de carros. Com isso, a capital tenta se adaptar ao crescimento das corridas em duas rodas. LEIA AS OUTRAS REPORTAGENS DA SÉRIE: De irregular a indispensável: transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade Profissionais que deixaram emprego para virar motoristas em apps se equilibram entre lucro e incertezas Corridas por apps em Fortaleza completam 10 anos em meio a reclamações de motoristas sobre ganhos O próprio capacete A assistente administrativa Paloma Bezerra é uma das inúmeras clientes conquistadas pelos atrativos das motos. Ela utiliza o serviço há dois anos, e decidiu até comprar o próprio capacete devido à frequência com que solicita as corridas. “Para mim, a moto acaba sendo um pouco mais acessível. Eu passei a usar por necessidade mesmo e por ver também que, às vezes, a diferença [de preço] do transporte público para a moto às vezes é muito pouca”, comentou Paloma. “Eu uso mais para me locomover para consultas médicas, para trabalhar. Apesar de eu trabalhar home office, às vezes eu preciso ir ao escritório presencial; para sair, tomar um café, para encontrar com amigos, com familiares. Acho que de modo geral, hoje, eu utilizo para tudo”, complementou. A assistente administrativa Paloma Bezerra utiliza motos por app com tanta frequência que decidiu comprar o próprio capacete Thiago Gadelha/SVM O diretor de operações da 99, Fabrício Ribeiro, destacou Fortaleza no cenário nacional entre os usuários do serviço. “Hoje é, com folga, uma das maiores cidades de moto no Brasil. Então, assim, tiveram várias inovações que foram nacionais, mas que tiveram um grande impacto também em Fortaleza”, disse. “A nossa maior ocasião de uso individual de moto, hoje, é mulheres à noite da estação de metrô, de ônibus até casa. Então às vezes é um trajeto de 800 metros, 1 quilômetro, que ela poderia fazer caminhando, mas que por medo de segurança, de sofrer um assédio ou sofrer um assalto, ela prefere ir com o aplicativo e no caso usa mais a moto, que é mais barato”, explicou Fabrício. Apesar de ser usuária assídua, Paloma não negou o receio de sofrer alguma situação desconfortável durante o serviço. “Nós mulheres somos um pouco mais vulneráveis em alguns aspectos de força. Eu acho que a sociedade é muito machista e a gente acaba sendo um pouco mais visada”, disse a jovem. Paloma, no entanto, se sente aliviada por nunca ter vivido nenhum caso de assédio por condutores. Em nota, a Uber elencou algumas medidas de segurança adotadas pelo aplicativo. “A selfie de capacete, que verifica se o motociclista está utilizando o equipamento obrigatório antes de começar a fazer viagens; e o alerta de velocidade, que exibe o limite de velocidade, em tempo real, além de enviar um conteúdo educacional caso o parceiro tenha excedido o limite”, disse. A empresa ressaltou que o desrespeito às regras de trânsito configura violação ao Código da Comunidade e aos Termos e Condições da plataforma exigidos tanto de parceiros quanto de usuários e pode levar à desativação da conta. “O motociclista parceiro precisa ter mais de 19 anos, CNH definitiva na categoria A e se enquadrar nos requisitos da legislação federal em vigor. A empresa mantém um contrato com o Serpro, empresa de TI do Governo Federal, para confirmar as informações cadastrais dos motoristas parceiros, de seus veículos e pessoas que querem se cadastrar na plataforma como motoristas. Todos os parceiros cadastrados passam por uma checagem periódica de apontamentos criminais, desde a primeira viagem”, complementou. Em Fortaleza, motos para transporte de passageiros devem ter, pelo menos, 125 cilindradas José Leomar/SVM Troca de veículo Marques Barbosa dos Santos, de 39 anos, decidiu se tornar motociclista por aplicativo em janeiro de 2026 — após anos atuando como condutor nos carros das plataformas. A mudança, segundo ele, ocorreu devido aos altos custos de manutenção dos carros à época em que era motorista. Apesar da mudança, o motociclista apontou que os ganhos com as motocicletas ainda estão aquém do que ele acredita ser o indicado. “Tem um preço do quilômetro muito desvalorizado. A média da moto diária, trabalhando 12 horas por dia, fica em torno de R$270, R$250”. Ele disse que, antes, fazia uma média de R$ 400 nos carros. Marques disse que optou atuar apenas no transporte de pessoas, e não faz delivery. “ Eu me sinto melhor, gosto de pessoas, gosto de conversar. Meu capacete tem até comunicador, eu consigo ter um diálogo com o passageiro — dentro do respeito, lógico e evidente — e fazer com que aquela viagem se torne mais tranquila”, disse. O motociclista, no entanto, reforçou a cautela que tem no trânsito, inclusive, dizendo não levar passageiros “muito apressados”. “Esse tipo de passageiro, eu já não consigo dar continuidade na corrida, justamente por conta que eu não vou atender a demanda de rapidez, de pressa que ele está”, concluiu. Motociclistas pedem mais ações educativas voltadas para segurança nas motos Thiago Gadelha/SVM A opção de Marques por não fazer delivery é a mesma de Douglas Sousa Silva, que trabalhava com transporte de passageiros desde antes da chegada dos aplicativos, em 2016. Atualmente, além de trabalhar como motociclista, Douglas é presidente da Associação dos Trabalhadores por Aplicativo de Fortaleza (ATAF). Antes de trabalhar como motociclista, ele trabalhou durante anos dirigindo carro por app. Hoje, embora prefira pilotar a moto, ele destacou que a categoria enfrenta mais dificuldades que aqueles em quatro rodas, sobretudo na segurança e nos lucros. “Nosso lucro é menor. Tá aí pela média de 80 centavos por quilômetro rodado. Um exemplo, a cada 100 reais ganhos, bruto, 70 reais ficam no bolso do trabalhador. Trinta reais é a perda de deslocamento e combustível”, revela. Para ganhar R$ 100, ele estima ser necessário trabalhar por cerca de 4 horas. Diariamente, ele trabalha cerca de 10 horas. Apesar disso, Douglas afirma que, para ele, a maior vantagem de trabalhar como motociclista por app é a liberdade. “Compensa por conta da liberdade que dá pro trabalhador”, assegura. “Você pode fazer o seu horário, ter que trabalhar de acordo com o seu cotidiano. Você pode deixar um filho no colégio, você pode deixar uma esposa no trabalho e, de lá, ligar seu aplicativo e trabalhar”. Categoria cobra mais atenção de passageiros e ações de apps Se entre 2021 e 2025 houve um aumento de 25% na circulação de motocicletas em Fortaleza, conforme dados do Detran, os últimos anos também registraram altos índices de acidentes envolvendo motocicletas - embora não somente aquelas que circulam por app. Somente de janeiro a março de 2026, o hospital Instituto Dr. José Frota (IJF), referência em traumatologia no Ceará, registrou mais de 2.100 atendimentos de vítimas de acidentes com moto. Em 2025, o hospital atendeu mais de 8.200 acidentados em motocicletas, o segundo maior número de atendimentos da unidade de saúde, atrás apenas das quedas. Os dados não apontam qual a proporção de motociclistas por aplicativo entre o número de acidentados, mas o alto número de acidentes chama atenção da categoria, que pede mais ações educativas das plataformas de transporte para os passageiros. Em abril de 2026, uma passageira de uma motocicleta por aplicativo morreu cair na pista e ser atropelada por um ônibus, na avenida 13 de Maio, no Bairro de Fátima, em Fortaleza. Em outro trecho da mesma avenida, um universitário de 21 anos morreu do mesmo modo, após cair da moto e ser atropelado por um ônibus, em setembro de 2024. Motociclistas de app cobram mais ações educativas para passageiros para melhorar segurança Thiago Gadelha/SVM O presidente da Associação dos Trabalhadores por Aplicativo de Fortaleza (ATAF), Douglas Sousa Silva, assegura que boa parte dos passageiros não sabe “sentar na garupa, se comportar na garupa de uma moto”, o que acaba colocando a própria vida e a vida do condutor em risco. “A plataforma, resumindo, precisa sim, dar instrução para o passageiro, para evitar alguns acidentes que estão acontecendo em Fortaleza. Muitos não conseguem se segurar direito, mulheres mexendo no celular, e isso tira realmente a atenção. O condutor tá ali para conduzir, mas tem que se preocupar com o passageiro atrás, é uma obrigação a mais, que pode colocar a vida dos dois nisso”, afirma. Além do reforço nas medidas educativas, Douglas cobra uma nova postura dos apps em relação ao bloqueio e avaliação de motociclistas, que ele considera “injusta”. “Noventa e nove pessoas deram cinco estrelas e uma pessoa deu quatro. A nota cai tanto o nível, tão baixo, que chega a desestimular o trabalhador, porque ele já anda com a carga de ter que olhar para o celular, cuidado no buraco, cuidado no trânsito, com os motoristas, e aí depois ter que ter a preocupação com o passageiro atrás se está agradando na velocidade, se está agradando no conforto do passageiro”, critica. Regulamentação Em dezembro do ano passado, Fortaleza aprovou dois projetos relacionados aos serviços de motociclistas na capital. O texto estabeleceu regras municipais para a prestação do serviço de transporte remunerado privado individual de passageiros por motocicletas e de entrega de mercadorias, quando intermediados por apps. Os condutores têm 18 meses para se adequar. Um dos projetos estabeleceu desconto de 50% no IPVA para o motociclista que estiver em dia com o pagamento do imposto e tributos municipais, possuir cadastro ativo e regular na Etufor, não ter cometido infrações graves ou gravíssimas nos últimos 12 meses e utilizar veículos com cilindrada máxima de 160 cm³, devidamente licenciados e em conformidade com as normas municipais. O presidente da Etufor, George Dantas, comentou os motivos que levaram o poder público a estabelecer tais medidas. “A regulamentação vem para trazer luz a determinados riscos que existem na atividade que sem ter uma lei para mostrar, a gente acaba não tendo base”, disse. A lei de 2025, por exemplo, autoriza o transporte de passageiros somente em motos que tenham a partir de 125 cilindradas, o que na prática proíbe, por exemplo, motos pequenas como as scooters e as "cinquentinhas" de atuar no transporte de pessoas. O peso médio de um adulto no Brasil é 80kg, conforme o IBGE. Com isso, é necessário pensar, em média, nos 160kg transportados na moto levando em consideração condutor e passageiro. "Na elaboração da lei, nós fizemos uma pesquisa nos manuais das motos e vimos que motos que têm uma capacidade bruta de carga de 160 kg são motos a partir de 125 cilindradas”, explicou Dantas. Número de motos cresceu 25% em Fortaleza entre 2021 e 2025, conforme dados do Detran-CE Thiago Gadelha/SVM “O transporte de pessoas sem obedecer o que está no manual da moto coloca em risco a vida do profissional e a vida do usuário que, na hora que está pedindo [a corrida], não sabe qual é a capacidade de carga dela e não para pra olhar isso. Uma moto dessa pode quebrar uma suspensão e atingir uma outra moto, um pedestre ou um carro”, complementou. Outra medida pensada pelo Executivo municipal aos motociclistas é a “Paradinha”, espaço inédito dedicado aos condutores de aplicativo. A última, inaugurada sob o viaduto das avenidas Pontes Vieira e 13 de Maio, sobre a Avenida Aguanambi, é exclusiva para motos e bicicletas. A Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) também criou uma faixa exclusiva para motocicletas; primeiro na Avenida Humberto Monte, no trecho compreendido entre as ruas José de Pontes e Rio Grande do Sul. Depois, foram instaladas também nas avenidas Santos Dumont, Alberto Craveiro e Presidente Costa e Silva (Perimetral). Ao g1, a Associação dos Trabalhadores por Aplicativo de Fortaleza (ATAF) afirmou que as iniciativas citadas, da faixa azul e da Paradinha, haviam sido apresentadas pela categoria para a Prefeitura de Fortaleza como propostas de melhorar as condições dos trabalhadores. Em abril deste ano, um projeto de lei que visava regulamentar a atividade de entregadores saiu de pauta na Câmara dos Deputados após uma série de protestos de motociclistas pelo Brasil. A proposta previa, entre outros pontos, um valor mínimo para cada corrida e obrigava os motociclistas a contribuir para a Previdência Social, com recolhimento feito pelos apps. O projeto causou insatisfação na categoria. Entre as críticas estavam a proporção de lucro garantido para as empresas dos apps e o valor do recolhimento de Previdência que seria feito nos lucros dos motociclistas. O presidente da ATAF, Douglas Sousa Silva, destaca que a categoria é a favor de uma regulamentação, mas com outros critérios e especial atenção para as tarifas. “O que não pode faltar nessa regulamentação é uma tarifa justa, e com reajuste anual, o que não pode faltar é direito do trabalhador, para que ele tenha a defesa em casos de bloqueio [pelo app]”, propõe. “O que o motoqueiro quer, ele quer ser livre, ele quer ter um bom salário. O que as plataformas pagam é muito pouco, não supre a necessidade dos gastos e da dor de cabeça que temos, da responsabilidade que é andar com uma vida na garupa”. 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